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Ex-companheiras denunciam homem por agressão, estupro e tentativa de homicídio

Ex-companheiras denunciam homem por agressão, estupro e tentativa de homicídio

Pelo menos cinco mulheres, formalmente, e outras, informalmente, denunciam o soteropolitano Iago da Silva Rodrigues, de 25 anos, por abusos durante o relacionamento.

Tivemos acesso a quatro boletins de ocorrência e um termo de declaração emitido pela Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Sergipe (OAB-SE) com acusações contra o homem.

Maria Júlia*, de 27 anos, conta que começou um relacionamento com o rapaz em 2018. No início, segundo ela, ele demonstrava ser uma pessoa tranquila, apenas ciumenta, mas, depois de alguns meses, passou a apresentar comportamentos agressivos.

A mulher relata que, um dia, foi à casa do namorado para terminar a relação, mas acabou trancada em um cômodo por ele. Ela também relembra um episódio em que Iago a enforcou durante a madrugada.

Em outra circunstância, Maria* passou duas semanas na casa do companheiro com ele permitindo que ela saísse apenas para o trabalho.

“Sofri abuso psicológico, violência… Ele me roubou, me estuprou, quebrou meu celular, tudo…”, desabafou a vítima, em entrevista.

A mulher conta ainda que não conseguia denunciar o agressor por conta das ameaças a ela e à sua família. Meses depois do fim do relacionamento, no entanto, ela procurou outras ex-companheiras de Iago Rodrigues, que relataram situações parecidas.

Na época, o agressor havia voltado de Aracaju (SE) para Salvador e já estava se relacionando com Joice*. A mulher conta que foi alertada sobre o companheiro por Maria Júlia*, por meio de um perfil fake nas redes sociais, mas já conhecia Iago, como amigo.

“Eu não tinha conhecimento porque conhecia outra pessoa enquanto éramos amigos. Depois, parecia história de terror, não conseguia sair daquilo”, diz. Ela afirma que, após saírem algumas vezes, o homem foi para a sua casa e, aos poucos, permaneceu na residência.

“Ele veio para o meu apartamento e não saiu mais. Ele me ameaçava, hackeou meu celular, me deixava presa. Chegou a um ponto que eu já estava tão sucumbida, que não tinha reação, além de ter vergonha de levar a situação para a minha família. Ele fazia muitas chantagens emocionais, psicológicas, ameaçava minha família, dizia que sabia onde minha família morava e ia matar meu pai. Eu fiquei desesperada, não sabia o que fazer. Ele também chegou a quebrar meu computador”, relatou à reportagem.

Joice*, então, decidiu terminar o namoro e foi para a casa de praia do pai. Segundo ela, Iago foi até lá, no intuito de retomar a relação. Na casa, sem que ele aceitasse o término, eles entraram em luta corporal.

“Ele me agrediu, me esganou e eu cheguei a desmaiar. Ele dizia que lá era fácil esconder meu corpo, que eu podia gritar que ninguém ia ouvir. Me manteve trancada na casa de baixo, com uma faca na mão”, conta.

Como saída, Joice* resolveu fingir que aceitava reatar o namoro. “Ele tentou me matar e pra que eu conseguisse me afastar daquela situação, eu falei com ele que eu ia voltar: ‘acho que a gente pode voltar, a gente se gosta’, e ele começou a se acalmar”, conta.

Em Salvador, depois, ela conseguiu registar boletim de ocorrência contra o agressor. As imagens do exame de corpo de delito mostram as marcas das mãos e dedos do homem no seu pescoço. “Ele estava determinado a me matar”, diz.


Foto: Arquivo Pessoal

De acordo com Joice*, após o trauma, sua saúde mental se deteriorou: “fiquei mal, meu quadro psicológico piorou muito”.

Após medida protetiva concedida pelo Ministério Público (MP), o agressor ficou proibido de procurar a ex e sua família por qualquer meio.

Segundo ela, no entanto, o homem criava perfis falsos nas redes sociais para continuar a ameaçando, e a medida, com validade de seis meses, está perto de vencer.

As duas mulheres, que se aproximaram após passarem pelo mesmo sofrimento, mantêm um grupo com outras vítimas de Iago Rodrigues – uma delas afirma estar grávida dele.

Recentemente, a busca por justiça e pela punição do agressor ganhou um novo capítulo após ele ser exposto em um perfil no Instagram dedicado a cobrança de dívidas.

Depois da exposição do nome, dezenas de outras pessoas que afirmaram ter sido vítimas do rapaz procuraram a página para compartilhar relatos de golpes e abusos. Desde então, o homem desativou todas as redes sociais.

“Ele é muito perigoso, um psicopata, e precisa ser preso, detido, parado. Ele age da mesma forma. Começa a conversar com a pessoa, descobre uma vulnerabilidade… Aquilo vai se tornando uma bola de neve que você não sabe o que fazer… Ele te mantém em cárcere mental e material, privado…”, afirma Joice*.

Polícia

A reportagem procurou as polícias civis da Bahia e de Sergipe. De acordo com a PC-BA, o acusado está com oitiva agendada na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) de Periperi, em Salvador, onde uma das quatro ocorrências às quais tivemos acesso foi registrada.

A assessoria acrescenta que a vítima já foi ouvida e teve medida protetiva requerida à Justiça. Familiares também prestaram depoimento na unidade.

Já o caso relatado na matéria por Joice*, foi direcionado pela Deam de Brotas, também na capital baiana, para a Delegacia Territorial  (DT) da cidade onde ocorreram as agressões, “que deve agendar os depoimentos e dar prosseguimento ao caso”.

A Polícia Civil de Sergipe confirmou um boletim de ocorrência registrado no estado e afirma que não há mandado de prisão contra Iago Rodrigues.

Crimes

A reportagem também ouviu o advogado Felipe Marcone, especialista em Direito Penal, que teve acesso aos relatos das vítimas e aos registros de ocorrência.

Na avaliação do criminalista, além dos crimes narrados nos boletins de ocorrência – injúria, ameaça, lesão corporal, difamação, constrangimento ilegal e dano – é possível observar ainda, nos relatos, a prática criminosa de perseguição e cárcere privado.

Com a somatória dos delitos, a pena, conforme o Código Penal Brasileiro, pode passar dos dez anos de prisão. O advogado acrescenta que é corriqueiro, em casos de abusos psicológicos, o agressor “deslocar” a vítima para a condição de causadora da situação.

“O agressor começa a justificar as condutas dele nas condutas da vítima. Muitas vezes, a vítima começa a não mais enxergar que está sendo violentada. Ela começa a pensar que precisa ficar em casa. Permeia nela o imaginário de que ela não é a vítima. Muitas vezes a gente vê, inclusive, vítimas pedindo desculpas a abusadores […] Há uma inversão. O abusador desloca ela da condição de vítima”, pontua.

Relações abusivas

Para a psicóloga Darlane Andrade, professora e pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (Neim) da Ufba, a violência contra a mulher é um fenômeno que tem como base a desigualdade de gênero.

Ela alerta que é importante que as mulheres observem, no relacionamento, se o companheiro demonstra “sinais de controle”.

“Comportamentos como ciúme excessivo, controle da roupa, querer controlar com quem ela se relaciona, as amizades…”, descreve.

“O que eu diria é que as mulheres observem esse amor travestido, romantismo disfarçado de controle. É super importante observar esses comportamentos e também buscar ajudar”, acrescenta.

A reportagem tentou ouvir Iago da Silva Rodrigues mais de uma vez, nos últimos dias, por meio dos números de telefone informados nos boletins de ocorrência, mas não conseguiu contato.

*A reportagem utilizou nomes fictícios no lugar dos verdadeiros a fim de preservar a segurança das vítimas ouvidas na matéria.

Informações: Bnews

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