Pico ou platô? Entenda como especialistas acompanham a epidemia de Covid-19

Salvador registra primeira morte por coronavírus na Bahia

Pela primeira vez, nessa quarta-feira (18/06), o Ministério da Saúde declarou que o Brasil está chegando ao momento de estabilização da pandemia. De acordo com os técnicos da pasta, está sendo observada uma diminuição no número de óbitos e uma constância na quantidade de casos. Teríamos chegado ao pico da epidemia?

Em primeiro lugar, o próprio Ministério da Saúde e vários especialistas alertam que o pico não será único em todo o país. Diferentes regiões experimentaram o auge da pressão no sistema de saúde em momentos distintos. O Amazonas, por exemplo, pode ter ultrapassado este momento. Depois de enfrentar um cenário catastrófico, com imagens de cemitérios lotados e hospitais sem condições de suportar a demanda, o estado tem vivido uma diminuição diária na quantidade de novos diagnósticos.

O professor do Departamento de Saúde Coletiva e membro da sala de situação da UnB, Mauro Sanchez, explica que o pico é quando o número de casos para de subir, estabiliza-se e começa, então, a diminuir. Porém, não é literalmente um pico: é mais um platô. “É possível ter uma epidemia que seja um pico, mas como essa cresce de forma explosiva e acelerada, é difícil a gente ver um dia que ela está crescendo e cair no seguinte. Devemos passar por um momento de estabilização, mas não há regra quanto a isso”, detalha.

Só será possível determinar que os casos estão, de fato, diminuindo, depois de pelo menos duas semanas de queda consistente — este é o período de incubação do coronavírus. De qualquer forma, o pico será identificado apenas quando olharmos para trás. “Não veremos um dia só, provavelmente vai ser um período. No dia a dia, pode ter flutuações”, explica o professor.

Picos matemáticos

Vários modelos matemáticos são utilizados para fazer uma estimativa de quando o pico deve acontecer. Sanchez explica que o cálculo costuma estar baseado no número de óbitos (é mais difícil haver subnotificações em falecimentos, que precisam ser justificados) considerando um intervalo de tempo. “Há 10 dias, por exemplo, quantos casos tinham que existir para alcançar o número de mortes? Assim, se cria uma curva que pode ser projetada para o futuro. Esta é a melhor maneira de se ter um cenário confiável. Se usarmos o número de casos confirmados, certamente não refletirá a realidade de pessoas assintomáticas ou com sintomas muito leves que não fizeram testes“, ensina.

A quantidade de casos atuais também não é considerada um bom parâmetro por incluir o resultado de testes rápidos, que medem a presença de anticorpos contra o coronavírus. Uma pessoa que tenha sido contaminada com a Covid-19 em março, por exemplo, mas só fez o exame hoje, entra nos dados do dia.

A taxa R também pode ser levada em consideração, visto que determina a velocidade de transmissão do vírus. Se está abaixo de 1 (cada paciente infectado contamina “menos” de uma pessoa), se considera que a curva está descendente. O número pode ajudar a prever quantas pessoas serão infectadas nos próximos dias, mas é algo que varia de acordo com as medidas de distanciamento social.

“O pico teórico, que segue um modelo matemático, não significa que vai acontecer na realidade. Depende do distanciamento social, da situação de cada cidade. Não são só 27 estados e 27 epidemias, cada município é diferente, é maior ou menor, o processo é muito dinâmico”, explica Glória Teixeira, epidemiologista da Universidade Federal da Bahia e integrante da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Esta informação seria usada apenas como uma forma de o gestor se organizar para o que pode acontecer.

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