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O excesso de tempo livre pode fazer mal à saúde, mostra estudo

O excesso de tempo livre pode fazer mal à saúde, mostra estudo

Não há dúvidas de que ter mais tempo livre se configura como um dos principais desejos para a maioria dos adultos. Mas não deveríamos ir com tanta sede ao pote. Pesquisa publicada recentemente no periódico Journal of Personality and Social Psychology conduzida por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, mostrou que o excesso de ócio pode causar um efeito contrário ao que se espera, podendo trazer, inclusive, estresse e ansiedade.

Segundo a coautora do artigo e pesquisadora da Wharton School, Marissa Shariff, o ideal é uma quantidade moderada de tempo livre, já que passar muitas horas sem fazer nada pode estar associado à falta de senso de produtividade e propósito. “Embora pouco tempo seja ruim, ter mais tempo nem sempre é melhor”, descreve no estudo.

— Quando você está ocupado, você não pensa em nada. Você ocupa a sua mente com coisas internas. Já quando você fica no ócio, e podemos usar a pandemia como um exemplo, isso te dá tempo para pensar mais — explica o psicólogo e pesquisador Renato Caminha, mestre em Psicologia Social e da Personalidade pela PUC do Rio Grande do Sul. — É aí que aquelas coisas que estão engatilhadas e que incomodam a gente começam a pipocar e a partir disso os quadros de ansiedade e depressão que já existiam são deflagrados.

A pesquisa traz uma análise de dois trabalhos anteriores que correlacionaram tempo livre e a sensação de bem-estar, conduzidos ao longo de 21 anos nos EUA. Ao todo, os resultados trazem dados de mais de 35 mil participantes.

Um desses estudos foi publicado na American Time Use Survey, que avaliava como cerca de 21 mil cientistas relatavam se sentir nas 24 horas anteriores à entrevista e como passaram o tempo nesse período. Descobriu-se, então, que, à medida que o tempo livre aumentava, a sensação de bem-estar também crescia, mas se estabilizava em cerca de duas horas e começava diminuir ao ultrapassar cinco.

Os resultados só corroboravam as informações apresentadas anos mais cedo pelo Estudo Nacional da Força de Trabalho dos EUA. A pesquisa trazia dados de mais de 13 mil trabalhadores, que avaliavam o próprio nível de satisfação pessoal e a quantidade de tempo livre de que dispunham, em uma escala de 1 a 4. Ao final do estudo, os pesquisadores chegaram aos mesmos números: mais do que cinco horas de ócio deixavam de ser benéficas aos participantes, trazendo uma sensação de vazio.

Para a psicóloga Daniela Faertes, a percepção de tempo perdido pode desencadear, inclusive, sintomas depressivos ou ansiosos.

— A interpretação que a pessoa tem do tempo livre é fundamental, explica a psicóloga. — Se interpretar como fracasso, incompetência, ainda mais nessa cultura de produtividade em que vivemos, torna-se mais grave a situação. Assim como se esse tempo não for por livre e espontânea vontade, uma escolha.

Nem todo tempo livre é ruim

Isso significa que todo tempo livre é ruim? Não necessariamente. A equipe de Shariff pontua que atividades produtivas não surtem o mesmo efeito negativo e que a maneira como se escolhe passar o tempo de lazer é imprescindível para a sensação de bem-estar. “Embora a abundância de tempo livre gasto em atividades individuais e não produtivas produzisse um efeito negativo no bem-estar subjetivo, o tempo discricionário gasto em atividades sociais ou produtivas não”, escreveram os autores do estudo.

A conclusão veio por meio de dois experimentos online, com a participação de mais de 6 mil participantes. Nele, os voluntários foram convidados a imaginar um cenário de rotina “perfeita”, em que despendiam de uma determinada quantidade de tempo diário de lazer para fazer o que quiser, por ao menos seis meses. Com essas horas “extras”, cada um deveria relatar como as gastariam, se de forma significativa ou não, e como se sentiriam com isso.

Ao fim dos experimentos, os pesquisadores constataram que, mesmo em cenários hipotéticos, a sensação de bem-estar ainda estava atrelada a um tempo moderado de horas de lazer e com a execução de tarefas relevantes.

Apesar de o trabalho quantificar alguns dados, a equipe de Shariff pontua que não há uma fórmula mágica a ser seguida e nem uma quantidade exata de horas a se gastar por dia. Isto é, pessoas que dispõem de pouco tempo livre não devem abandonar as obrigações, mas tentar buscar algumas horas de lazer diário, reforça o estudo. Já aquelas que não têm muitas atribuições devem se preocupar em utilizar esse tempo livre com tarefas com algum propósito, como se envolver em atividades sociais ou de aprendizado.

— É muito importante que tenhamos tempo para o lazer, mas o ócio excessivo também pode, sim, levar à angústia — reforça a psiquiatra Roberta França, especialista em terapia cognitiva e diretora do Espaço Ciclo no Rio Janeiro. — É imprescindível utilizar esse tempo com coisas boas e produtivas, seja fazendo uma meditação, ouvindo música, lendo um bom livro ou apenas se conectando com pessoas e coisas de que você gosta.

O ócio criativo

Em meados da década de 90 o sociólogo italiano Domenico de Masi revolucionou o conceito de vida profissional com a ideia do “ócio criativo”. De Masi usou a ideia para explicar como um tempo livre favorece a criatividade. Segundo ele, a alegria e a satisfação aumentam a capacidade inventiva e adaptativa e acarretam um melhor desempenho no trabalho.

“Existe um ócio alienante, que nos faz sentir vazios e inúteis. Mas existe também um outro ócio, que nos faz sentir livres e que é necessário à produção de ideias, assim como as ideias são necessárias ao desenvolvimento da sociedade.”, cunhou o sociólogo.

O ócio proposto por De Masi, portanto, não significa não fazer nada. Por ócio criativo entende-se a união entre trabalho, estudo e lazer, de forma que a pessoas possa experimentar o valor vindo do trabalho com a alegria proporcionada pelo lazer.

 

Informações: O Globo

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