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O “Almirante Negro”

O “Almirante Negro”

A sociedade brasileira navegava em águas turvas nos anos 1970, em plena ditadura militar, quando dois consagrados compositores, João Bosco e Aldir Blanc, enviaram ao departamento federal de censura a música e a letra de “Almirante Negro”. Após o vaivém de censores e autores, Aldir decidiu perguntar qual era o problema que impedia a liberação. A explicação oficial veio clara: a composição exaltava o marinheiro preto João Cândido Felisberto, que, em novembro de 1910, liderara no Rio de Janeiro a sublevação de cerca de dois mil marujos, reivindicando e conseguindo o fim dos castigos corporais impostos pelos oficiais da Marinha. João Cândido, segundo a censura, era um nome maldito. O drible de Aldir foi digno de Fla-Flu no Maracanã: nos versos, a palavra “almirante” virou “navegante”; e o título ele alterou para “O mestre-sala dos mares”. Pronto, tudo liberado, Elis Regina gravou e os movimentos contra a ditadura tornaram público que o “navegante” em questão tratava-se mesmo de João Cândido, o marinheiro que amotinou, na Baía da Guanabara, o cruzador Bahia, a embarcação Deodoro e o encouraçado Minas Gerais — seu comandante e marinheiros legalistas foram mortos pelos revoltosos. A música explodiu em sucesso nacional.

COM A PELE ARDENDO
Os amotinados no cruzador Bahia, em 1910 (no alto), e João Cândido (acima, à dir.): divisor de águas na história do Brasil (Crédito:Divulgação)

Naveguemos, agora, bastante no tempo, e chegamos ao presente. O Senado, mesmo diante de um pedido contrário da Marinha, acaba de aprovar a inscrição do nome de João Cândido no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”. O assunto segue à Câmara dos Deputados, e, também nessa Casa, a Marinha fará o possível para que a proposta seja derrotada. Ou seja: desde 1910, passando-se pela década de 1970 e alcançando-se os dias de hoje, o nome do “Almirante Negro” é impronunciável para a Marinha. Esse é, de fato, um dos mais polêmicos temas da historiografia brasileira. João Cândido teve o seu mérito, não pelas mortes que causou, mas, isso sim, porque conseguiu que oficiais brancos deixassem de vergastar marinheiros pretos e pobres – o racismo, segundo estudiosos, imperava na Armada. A imprensa chamou a rebelião de “A Revolta da Chibata”, e ela teve como estopim as duzentas e cinquenta chicoteadas infligidas a Marcelino Menezes – desmaiado, seguiu apanhando. A Marinha, por sua vez, está sendo coerente ao não querer que João Cândido receba honrarias, uma vez que ele quebrou a hierarquia da Arma e capitaneou um levante, no qual oficiais e marujos foram assassinados. Frise-se, no entanto, que açoitamentos são inadmissíveis e, no Brasil, já estavam proibidos desde a Constituição Imperial de 1824 – proibição ratificada pelo decreto de número três do Marechal Deodoro da Fonseca, em 1889, no dia 16 de novembro, vinte e quatro horas após a Proclamação da República. Nada, absolutamente nada, justifica castigos corporais – e repudiamos tal tipo de punição, seja no passado, no presente e no futuro.

O MARECHAL Hermes da Fonseca: anistia mentirosa (Crédito:Divulgação)

Enquanto o projeto tramitava no Senado, o parlamentar Izalci Lucas, a pedido da Marinha, solicitou vista para “melhor conhecimento da matéria”. Estudado o caso, o próprio Lucas votou a favor da homenagem, após ler um comunicado oficial da Arma, afirmando que “A Revolta da Chibata” não poderia ser vista como “um ato de bravura” ou de “caráter humanitário”. Mais: “(…) todos os envolvidos, dentre eles a Marinha, setores do governo, os revoltosos e outras instituições tiveram culpas e omissões. Mas reconhecer erros não justifica (…) exaltar as ações dos revoltosos”. Apesar dos protestos da Marinha, passados e futuros, também na Câmara dos Deputados os seus esforços serão em vão, até porque o açoite é imprescritível crime de tortura – como, de fato, deve sê-lo. “No começo do século vinte a Marinha era a principal representação do Estado. Se ela reconhecer que João Cândido foi herói, estará reconhecendo que, de fato, permitia castigos corporais”, diz Rodrigo Rainha, doutor em História Comparada pela UFRJ. “Além disso, não há como negar que João Cândido é um símbolo de resistência republicana”.

O motim terminou com a falsa proposta do marechal Hermes da Fonseca, então presidente do Brasil, de conceder anistia aos revoltosos. Era final de novembro de 1910. Pouco tempo depois ocorreu um levante no Batalhão Naval e associaram a ele o nome de João Cândido. O “Almirante Negro” foi preso e atirado em um buraco cavado em rocha, fechado por grossa grade. Ficava na Ilha das Cobras e os carcereiros, frequentemente, jogavam-lhe cal em todo o corpo. João Cândido sobreviveu, foi absolvido e sumiu. Vamos reencontrá-lo no início dos anos 1930, fazendo parte do Integralismo, movimento de inspiração fascista do qual chegou a liderar núcleos na região portuária do Rio de Janeiro. Novo sumiço, nova reaparição, dessa vez na Praça XV e agora vendendo peixe. A partir disso, a vida virou correnteza. Na praça ganhou um busto. Em 1969 morreu em um dia de tempestade e na mais profunda miséria. Edmar Morel foi perseguido por ter escrito o livro “A Revolta da Chibata”. Em 2008 Lula anistiou postumamente o “Almirante Negro”. Em 2021 a questão está longe de ser pacificada.

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