Mãe suspeita de mentir doença de filhos é investigada em São Paulo

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criancaA história de uma mãe que luta para curar sua filha vítima de leucemia, levada ao ar em um programa de rádio no Espírito Santo, é apontada como falsa por órgãos públicos dos estados de São Paulo e Espírito Santo. Com o objetivo de receber dinheiro e doações, Marlete Oliveira Alves é suspeita de falsificar laudos médicos atestando que a menina de seis anos tem câncer.

Conselheiros tutelares paulistas e as secretarias municipais de Jandira, na Grande São Paulo, afirmam que a mulher mentiu ao pedir ajuda financeira para a menina Larissa. Quando confrontada com evidências, Marlete negou as falsificações e em seguida desapareceu de Jandira levando os filhos. Ela deverá ser ouvida pela polícia.

Marlete responde a um inquérito aberto na delegacia de outra cidade da Grande São Paulo, Barueri, por falsificação de documento público. “Na verdade, há um inquérito instaurado contra Marlete porque ela teria falsificado a assinatura da médica”, disse o delegado titular de Barueri, Hélio Bressan. O procedimento foi aberto em abril de 2013 e também envolve o uso fraudulento do carimbo da médica.

No Espírito Santo, a criança foi levada até a rádio Gazeta AM pela mãe com a finalidade de “realizar o sonho de cantar ao vivo”, pois estaria em fase terminal no tratamento do câncer.  A história foi denunciada como falsa por leitores.

Marlete, que tem 41 anos, começou a ficar conhecida entre os servidores públicos de Jandira nos quatro primeiros meses de 2013. Mãe de Larissa, de 6 anos, e de Luan, de 8 anos, ela dizia que o marido, Antonio Carlos Pires, havia morrido da mesma doença que estava acometendo seus filhos. Em checagem , o CPF de Pires consta como ativo. Além disso, segundo o Ministério da Saúde não consta que ele tenha morrido.

Documentos revelam que Marlete, nascida em Barra do Macaé, no Rio de Janeiro, em 9 de março de 1972,  transferiu o título de eleitor para Jandira em abril de 2013. A carteira de trabalho, emitida em 2009, com carimbo de Casimiro de Abreu, estava sem registros.

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Carta deixada por Marlete

Sem lugar para morar, conseguiu o empréstimo de uma casa onde viveu de graça por três meses, período durante o qual obteve doações de pelo menos 21 igrejas e denominações evangélicas nas quais se batizou. Acumulou entre R$ 8 mil e R$ 10 mil em dinheiro, eletrodomésticos e móveis, de acordo com o relato de testemunhas.

Marlete sumiu de Jandira levando as duas crianças durante a madrugada do dia 1º de maio, logo após o Conselho Tutelar buscar a guarda das crianças. A medida foi tomada após a constatação, em 30 de abril, pela Secretaria da Educação, de que que os laudos médicos que a mãe apresentava eram falsos.

A história de Marlete começou a desmoronar por causa das exigências que ela começou a fazer para manter as crianças matriculadas na rede municipal de Jandira. A mãe raspava a cabeça da menina, enviava medicamentos para serem administrados sem receita médica e tentava controlar a alimentação fornecida pela escola, segundo a supervisora de ensino da Secretaria Municipal de Educação de Jandira, Roseli Vieira Costa.

“Chamamos a mãe para uma conversa. Ela disse que o pai das crianças havia morrido na Páscoa, de câncer. Fomos investigar. No cartório, não encontramos nada. Procuramos o Hospital de Barueri com os laudos que ela tinha entregado na escola. O pessoal de Barueri ficou bastante assustado. A médica em questão na hora disse que os laudos eram falsos e fez um boletim de ocorrência”, relata a secretária Roseli Costa.

“Voltamos para Jandira, investigamos mais um pouco, entramos em contato com a Ação Social. Passamos as informações que havíamos recolhido em Barueri. Entramos em contato com o Conselho Tutelar, que foi até a escola para pegar a guarda dessas crianças porque ela estava usando as crianças de forma insensível. Aí ela sumiu”, conta Roseli.

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Casa onde Marlete morou com Jandira

Estratégia
O ex-conselheiro tutelar Wagner de Oliveira Thomaz afirma que quando Marlete percebeu a possibilidade de perder as crianças, insistiu em levá-las primeiro ao pronto-socorro de Jandira, onde a menina tomou soro das 18h às 2h do dia seguinte.

“Nós fomos até a escola determinados a afastar as crianças dela, só que a escola queria dar ciência a ela do afastamento e, por lei, a gente tem que fazer isso”, comentou Thomaz. Ele afirma que Marlete usou o aviso para criar uma estratégia para fugir com as crianças.

“Na hora que ela compareceu à escola e falou da doença, a criança começou a chorar e apresentar sintomas de que estava passando mal. Ela (Marlete) virou para o conselho e falou: ‘Vocês vão cercear o direito à saúde?’. Ela nos acompanhou ao hospital. A criança foi para o soro”, comenta o ex-conselheiro.

“Nesse tempo, a gente foi entrar em contato com a delegacia. Chegamos a entrar em contato com o delegado pedindo informações sobre como agir nesse caso. Mas a delegacia disse que precisava ser apurado o crime, primeiro, mas não poderia ser feito pela polícia de Jandira, porque o boletim de ocorrência foi feito em Barueri. Nesse tempo, a criança ficou tomando soro. Ela disse que iria até o hospital de Barueri e provar que o que ela falou não era mentira. Nós fomos. Foi o momento que ela fez a fuga. Já era madrugada. Ela pediu para tomar um banho e dar alimentação para as crianças”, relata o ex-conselheiro.

“Foi questão de segundos. O conselho foi atender a uma ocorrência e enquanto isso ela entrou em um carro e desapareceu da cidade. A gente ficou no hospital com ela desde as 18h até as 2h. Assim que ela fugiu a gente notificou o Ministério Público imediatamente. Fomos à delegacia, mas a delegacia estava fechada porque estava dedetizando o prédio. Também notificamos os demais conselhos da região.”

Marlete esteve em uma rádio capixaba no dia 18 de dezembro. Disse que os dois filhos, uma menina de 6 e um menino de 9, sofriam de leucemia. A mulher contou que havia vindo de Casimiro de Abreu, no Rio de Janeiro, para uma consulta no Hospital Infantil de Vitória e que uma médica teria dito que sua filha só tinha mais três meses de vida.

Ajudas

Marlete chegou à Secretaria de Promoção Social de Jandira por meio da assistente de recursos humanos Aline Maciel, frequentadora de uma paróquia católica da cidade onde Marlete apareceu pedindo ajuda. A cuidadora da avó de Aline emprestou a Marlete uma casa de dois cômodos e pagava as contas de água e luz.

“Ela falsificou os documentos, porque as crianças não têm leucemia. Quando as pessoas começaram a questionar, no dia seguinte ela não estava mais em casa. Os laudos estão com carimbo do hospital de Barueri. Maio foi a última aparição dela aqui. Ela tinha um jeito muito simples, de gente do interior. Juntando eletrodomésticos, dinheiro e tudo mais, ela conseguiu entre R$ 8 mil e R$ 10 mil. Toda a mobília da casa dela foi doação. A casa estava tampada de brinquedo. Ela deixou tudo para trás. O Luan é saudável, é corado, não aparenta doença.”

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Aline, que conheceu Marlete em comunidade
religiosa e a levou a Cáritas,
a secretaria de assistência social

A secretária de Promoção Social e primeira-dama de Jandira, Cáritas Benitez, disse que na primeira visita que fez a Marlete, ela não a deixou entrar na casa. Cáritas disse que chegou a dar R$ 200 para Marlete comprar medicamentos. “Ela se batizou em 21 igrejas. Nos cultos, foi falado do caso dela. As pessoas se sentiram humilhadas e enganadas”, diz a primeira-dama.

G1 teve acesso a fotos e documentos que Marlete deixou para trás em Jandira. Em uma carta manuscrita com data de 12 de setembro de 2012 ela lamenta a perda da mãe e afirma que decidiu viver para cuidar de Luan e Larissa “até que eles cresçam e possam tomar suas próprias decisões.”  Ela também sentir a perda da mãe: ” Sinto tantas saudades de mãe que a dor é insuportável. A vida, as pessoas, o dinheiro que eu tenho, nada tem valor”, afirmou.

“Eu sei que se a minha mãe tivesse me ouvindo diria: levante a cabeça, vai passear com Antonio e as crianças, você tem dinheiro, está guardando para quê?”

Em centenas de fotos, Marlete aparece comemorando aniversário das crianças e ao lado de Antonio Carlos Pires, apontado como o pai dos meninos. Nenhum deles usa máscaras, ataduras ou tem sinais externos de doença. Antônio é réu em um processo que tramita do fórum de Carapicuíba em que um banco cobra dívidas de R$ 34,4 mil. Na petição, Pires afirma que buscou os empréstimos para ajudar os gastos médicos de filhos com câncer. As crianças e mãe aparecem também em casas bem construídas, supermercados e churrascos.

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Marlete e Antonio durante festa de aniversário

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