Crise política pode travar retomada, diz presidente da Anfavea

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A produção de veículos leves e pesados teve queda de 2% entre os meses de junho e julho, segundo dados divulgados nesta sexta (6) pela Anfavea (associação das montadoras).

O resultado não é surpresa: as 163,6 mil unidades montadas no último mês foram limitadas pela falta de semicondutores, que força o fechamento de fábricas mundo afora.

“Estimamos uma perda de 100 mil a 120 mil unidades no primeiro semestre devido à falta de peças”, diz Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea. “Há uma fábrica na Malásia parada devido ao aumento de casos de Covid-19, a bruxa está solta no setor de semicondutores.”

Em relação a julho de 2020, houve queda de 4,2% na produção. Naquela época, o problema era a adaptação das linhas de montagem em meio a um momento mais crítico da pandemia de Covid-19. A indústria automotiva vivia então com a esperança de uma recuperação em V —que até veio ao longo do segundo semestre, mas foi interrompida pela crise dos componentes.

Agosto não deve trazer notícias melhores: carros das marcas Fiat, Chevrolet e Volkswagen, que dividem as primeiras posições em vendas no século 21, estão com a produção total ou parcialmente paralisada neste mês. A expectativa é de melhora no último quadrimestre, embora ainda insuficiente para atender à demanda por modelos zero-quilômetro.

O setor de caminhões foi o que mais se destacou no último mês, com 14,8 mil unidades produzidas —crescimento de 1,1% em relação a junho e de 117% em comparação a julho de 2020.

“Dado o menor volume de vendas [em relação aos veículos leves], estamos conseguindo manter a produção de caminhões apesar dos problemas com semicondutores”, afirma Moraes.

É o agronegócio o principal responsável pela alta nas vendas de veículos pesados, e o sucesso puxa também o segmento de carros de passeio e veículos comerciais leves.

As montadoras têm aproveitado as safras recordes para lançar planos de financiamento voltados aos produtores rurais. O grupo Stellantis apresentou um programa em maio, e a Toyota, neste mês.

Contudo não basta ter dinheiro e acesso a linhas de crédito para colocar um carro novo na garagem. As filas de espera continuam longas, e alguns modelos só serão entregues no início de 2022.

Os estoques seguem baixos e preocupam os revendedores, que estão com as lojas vazias. De acordo com a Anfavea, há carros suficientes para atender a 15 dias de vendas. O número de carros nos pátios das fábricas e concessionárias caiu de 93 mil em junho para 85 mil em julho. É o patamar mais baixo desde que esse dado começou a ser aferido pela Anfavea, em 1999.

Em março de 2020, mês em que a OMS (Organização Mundial da Saúde) confirmou que o mundo passava por uma pandemia, havia 267 mil veículos à espera de compradores.

“Enquanto a gente tiver esse desafio de falta de componentes, teremos um nível de estoque bem justo. É um desafio, todo dia de manhã o pessoal de logística atualiza a situação das peças”, diz o presidente da Anfavea. “Acredito que o patamar normal não vai voltar antes do segundo semestre de 2022.”

Além da falta de carros, há seguidos aumentos de preços. A variação média acumulada entre os meses de junho de 2020 e de 2021 é de 8,3%. O dado foi levantado pela KBB Brasil a pedido da Anfavea.

A entidade atribui essa inflação do carro à alta dos insumos. Segundo a associação das montadoras, o aço subiu, em média, 84,5% entre os meses de junho, além de outros reajustes.

A crise política do momento não ajuda em nada os negócios, mas a Anfavea, que vinha adotando um discurso muito crítico ao governo Jair Bolsonaro, foi comedida na entrevista coletiva desta sexta. Moraes explicou que os impactos dos problemas atuais aparecem nas negociações com as matrizes.

“Toda vez que apresentamos um novo projeto, na primeira parte já se coloca o cenário econômico e político do país”, diz o executivo.

“E sempre que temos uma crise política, isso se reflete na bolsa e no dólar. Parece que a inflação não é tão momentânea, e quando temos um fator adicional, que é a crise institucional, isso traz consequências para a economia, que é o mundo real. São impactos negativos que não nos interessam, e podem tornar a retomada mais lenta do que imaginamos.”

Os empregos se mantiveram estáveis em julho, com 102,7 mil empregados nas empresas associadas à Anfavea.

As exportações tiveram queda de 29,1% entre junho e julho, o que também é reflexo dos problemas de produção.

Informação: Folhapress

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