Cleo Pires fala sobre a chegada dos 40 anos e sobre a saúde mental das mulheres

A chegada de Cleo foi, literalmente, anunciada na televisão. “O Chacrinha divulgou meu nascimento, todo mundo realmente acompanhou”, conta a atriz, cantora e produtora, que neste domingo (2), completa 40 anos. Da revelação no programa de auditório aos dias de hoje, ela deixou para trás o Pires da mãe, Gloria, abraçou sua carreira e a dos pais, Fábio Jr. e Orlando Morais, e trilhou seu próprio caminho, abrindo portas não só para si como para outras mulheres. “Toda vez que eu escolho falar publicamente sobre alguma coisa, é porque aquilo não é só sobre mim, é sobre o fato dessas dores atingirem outras pessoas também”, diz ela, que debate há tempos temas como feminismo, machismo, empoderamento e relacionamentos tóxicos.

 

Na conversa de mais de uma hora em videochamada, Cleo assume que já sofreu com a síndrome de impostora, que ressalta atingir mais às mulheres – falar do universo feminino e suas lutas é uma constante para ela, que desde cedo entendeu que o mundo era outro para os homens. “Os meninos eram muito estimulados a ter namorada, a fazer sacanagem, a meter porrada. E se você é uma mulher e faz isso, fica de castigo”, lembra. Para as fotos desta capa, fez uma releitura de seu ensaio para a revista Playboy, há 12 anos, um marco na sua vida e na publicação. É que ela fez questão que não fossem retocadas “imperfeições” como celulite e gorduinhas a mais.

“Eu queria que ficassem ali, porque faziam parte de mim”, conta, explicando que posar nua foi também dar voz a um desejo maior. “Durante muito tempo, eu abafei esse meu lado mais exibicionista e que gosta de coisas sensuais e sexy, porque eu não queria ser objetificada. Chegou um momento que, para mim, não era justo eu não poder expressar as coisas que sentia legitimamente dentro de mim, as minhas vontades, os meus desejos estéticos e ideológicos, de não viver isso por causa de uma sociedade que ia me objetificar”, aponta.

Ficar confortável na própria pele é um processo em andamento. Cleo já teve fases de se esconder por estar acima do peso e precisou se espelhar em mulheres fora do padrão, famosas e anônimas, para se libertar das amarras que criou. Cuidou da saúde física ao descobrir que tinha uma doença autoimune na tireoide e viu “muita coisa se encaixar” ao ser diagnosticada, na pandemia, com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). “Não me dava muito bem no sistema escolar, eu fui descobrir que gostava de estudar depois que eu saí da escola, porque na minha cabeça eu era muito burra e odiava estudar. E não era isso, era só porque minha cabeça funcionava diferente”, conta.

“O diagnóstico me libertou, porque entendi que não estava louca, era uma forma que o meu cérebro funcionava e que existia uma forma de lidar com isso e que ia fazer minha vida ser melhor”, afirma, fazendo uma ressalva. “O diagnóstico não te define. É uma ferramenta de autoconhecimento, é mais uma coisa que você conhece sobre você e que pode agora usar seu favor. Eu não sou definida pelo meu TDAH. Eu tenho TDAH, não é ele que me tem”, estressa.

Artista multifacetada, Cleo estreou como atriz aos 11 anos, ao lado da mãe, em O Memorial de Maria Moura (1994). Fez novelas como América (2005), Caminho das Índias (2009), e Salve Jorge (2012), e os filmes Operações Especiais (2015) e Mais Forte que O Mundo – A História de José Aldo (2016). Tem dois longas para 2022, um deles O Velho Fusca, do qual é produtora e protagonista. Participou da Semana de Moda internacional, em Nova York, nos Estados Unidos, e fez sua estreia no Rock in Rio, no show do Number Teddie, com a mãe e as irmãs, Antonia e Ana Morais, na plateia. “Não posso nem lembrar que me dá vontade de chorar. Foi bem emocionante”, diz ela, que prepara seu primeiro álbum para breve.

O próximo lançamento de Cleo é um single e videoclipe homônimo ao livro Todo Mundo que Amei já me Fez Chorar, que virou web série no Instagram da atriz, discutindo relações tóxicas de vários tipos. Experiência pela qual ela já passou em relacionamentos anteriores. Em 2021, Cleo se casou com o modelo Leandro D’Lucca. “Ele me mostrou que a gente podia ser parceiro de igual para igual, que não ia ter joguinho de poder, que íamos ser amigos além da paixão”, conta ela.

“Eu não tinha uma loucura para casar. Também nunca sentia que era o momento e dessa vez, senti”, explica, acrescentando que filhos estão nos planos do casal. “Eu sempre quis ser mãe, sempre cogitei que esse momento ia acontecer na minha vida. E continuo cogitando. A gente quer, Leandro adora ser pai (de Gael, 9), e queremos muito viver essa maternidade e a paternidade”, adianta.

Você está completando 40 anos. Para muita gente é um momento de ponderar, olhar para trás para poder olhar para a frente. E você?
Os 40 não estão me fazendo ponderar, eu sempre ponderei. Sou muito libriana nesse aspecto, sempre ponderei muito como tinha sido o meu trajeto até onde eu estava, o que queria para depois. De fato, amadurecer tem sido muito bom. Eu não trocaria meus 40 pelos meus 20, nem pelos meus 30 e por nenhuma outra idade. Acho que o tempo de vida me fez entender melhor meus processos, ficar mais à vontade com a existência e ir de encontro a muitas coisas da minha essência, que vivendo e sobrevivendo, às vezes, são deixadas para trás sem querer. A idade só me faz ficar mais próxima da minha essência, então realmente não tem um peso para mim. Não é: ‘ai, quero dizer que não tem peso porque todo mundo diz [que tem]’, não é isso. É porque me sinto muito melhor e muito mais feliz, muito mais bonita e muito mais legal, e muito mais em sintonia com os meus valores do que antigamente.

 
Cleo (Foto: Ernna Cost)

Cleo (Foto: Ernna Cost)

Você está mais confortável com a mulher que você se tornou, se sente à vontade com quem você vê no espelho?
Eu acho que esse desejo de estar sempre muito à vontade é muito legal como um objetivo, mas é um processo. Não estou sempre à vontade na minha pele, não estou sempre satisfeita comigo, e é normal isso. Mas, no geral, sim, estou muito mais à vontade comigo e na vida.

As fotos dessa capa são inspiradas no seu ensaio da Playboy. De onde veio a ideia?
Foi um conceito do Ernna Cost, que é fotógrafo e meu amigo. A gente queria refazer aquela capa de outro jeito. Eu amei, porque a Playboy foi um marco na minha vida.

Foi uma capa sem retoques, certo?
Na verdade, teve retoques porque tinha um padrão de imagem para imprimir no papel. Mas eu não queria que tivesse retoque de coisas que a gente chama de defeitos, mas que não são defeitos, como celulite, gordurinha a mais, ‘imperfeições’ que queria que que ficassem ali, porque faziam parte de mim.

“Durante muito tempo abafei meu lado exibicionista e que gosta de coisas sensuais e sexy”

 

O que é algo de que se fala muito hoje, mas que há 12 anos nem era pauta.
Com certeza. Não se falava nisso, mas para mim era importante, porque antes de eu me considerar feminista, muito nova, eu tinha uma noção instintiva de como a mulher era objetificada e usada e isso me incomodava muito. Então, durante muito tempo, abafei esse meu lado mais exibicionista e que gosta de coisas sensuais e sexy, porque eu não queria ser objetificada, não queria ser usada dessa forma. Chegou um momento que para mim não era justo não poder expressar as coisas que sentia legitimamente dentro de mim, as minhas vontades, os meus desejos estéticos e ideológicos, de não viver isso por causa de uma sociedade que ia me objetificar. A capa da Playboy foi esse marco para mim.

De que forma?
Não fazia sentido eu camuflar a realidade do que o meu corpo era no momento. Eu não estava preocupada com a perfeição ou que era considerado perfeito, estava preocupada em quebrar aquele paradigma dentro da minha cabeça. E sabendo que muitas vezes eu estava ali vivendo meus desejos e quebrando paradigmas para mim, mas ao mesmo tempo eram fotos que podiam ser usadas de forma velada para oprimir outras mulheres, porque isso acontece. Eu não queria que as pessoas vissem uma coisa plastificada, não que eu seja contra, mas eu não queria, não era o intuito do momento.

Cleo (Foto: Ernna Cost)

Cleo (Foto: Ernna Cost)

Ali você botou para fora o ‘mulherão’ que você era?
Não, eu já era um mulherão. Mas ali, me libertei de certas amarras que eu tinha. Não tinha medo de julgamento, mas não queria ser objetificada. Não queria ser vista como se eu tivesse valor por causa da minha sexualidade ou da minha beleza ou do que normalmente a sociedade usa em relação às mulheres para que elas tenham valor. Só que fui entendendo que eu também tinha desejos individuais e não era justo me privar de fazer uma coisa que eu não estava fazendo mal a ninguém, que era em relação a mim, com meu corpo, com a minha vida, por causa de amarras sociais.

Você já contou que fez trisal e que fez sexo nos Estúdios Globo, falou muito abertamente sobre sexo, que ainda é um assunto tabu para muita gente. Isso também fez parte deste processo?
Eu acho que sim, que fazia parte da minha descoberta de mim mesma e de viver as coisas e as experiências da forma como elas se apresentavam. Ou seja, se existe uma pergunta sobre sexo ou um tema que seja sobre sexo, eu não vou me privar de falar sobre isso porque eu sou mulher.

Recebia feedback do seu público quando falava sobre sexo?
Tive bastante feedback desse tipo de coisa, de várias mulheres que falavam ‘cara, eu adoro quando você fala sobre essas coisas, porque é muito ruim a gente sentir que não pode tocar nesses assuntos, porque senão fica estigmatizada e você tá lá falando, você não tá nem aí’. Era bom ouvir isso, mas também tinha um feedback de mulheres que achavam que eu era uma devoradora de homens e que eu ia acabar com a vida delas (risos). O retorno positivo me alimentava muito.

Foi vítima de machismo por falar sobre o tema?
Sim, mas mesmo se eu não falasse, seria vítima de machismo. Isso é só um outro tipo de sexismo, machismo e misoginia. Falando ou não, você sofre isso.

Cleo (Foto: Ernna Cost)

Cleo (Foto: Ernna Cost)

Quando você percebeu que por ser mulher era discriminada na sociedade, que não tinha tinha o mesmo tratamento que os coleguinhas na escola, que um primo?
Desde muito cedo, porque vi que os meninos eram muito estimulados a ter namorada, a fazer sacanagem, a meter porrada. E se você é uma mulher e faz isso, fica de castigo, está fazendo alguma coisa errada, é vista e tratada de outra forma.

Se sentia injustiçada?
Com certeza, porque são muitas coisas quando você vive em um sistema que oprime pessoas para que outros tenham privilégios e você faz parte dessas pessoas que são estruturalmente tratadas de forma diferente e menos importante, você se sente injustiçada, se sente sacaneada, se sente passada para trás.

Você já foi vítima de assédio?
Nada que eu possa compartilhar. Mas que tudo doeu. Já sofri assédio e sofri muito abuso psicológico e emocional. O que mais me marcou foram os terrorismos emocionais e psicológicos.

Já se pegou sendo machista?
Já. Faz bastante tempo que me policio muito com isso, porque realmente não quero perpetuar esse tipo de cultura, mas já julguei muito mulher que pegava todo mundo e não escondia, já julguei as roupas. Acho que todos os tipos assim de falas machistas, talvez meio veladas, eu já tenha tido. A gente, infelizmente, tem uma construção ao nosso redor que é muito tóxica em relação às mulheres

 

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